Bem-estar

Uma humanidade “enlouquecendo” devido ao seu modo de viver

11 de fevereiro de 2019

Como não entrar em estado de “loucura” em meio ao mundo frenético em que vivemos? Temos escolha? Podemos fazer de outro jeito?

Faz um tempo que venho me perguntando ou mesmo conversando com amigos, pacientes e familiares sobre o mundo em que vivemos e a pressão que parece emergir dele. Sim, vivemos em uma cultura imediatista, onde queremos tudo para hoje ou, se ainda for possível, ontem! 

Vemos pessoas com 25 anos que culpam-se por não ter total independência financeira, por não ter o carro próprio ou sua casa/apartamento quitados, por ainda não ter filhos. Sim, é uma cobrança pessoal a todo momento. Pode ser que tudo se transforme em motivo para cobrar-se internamente, gerando assim uma intensa angústia existencial. Observo que esse viver desenfreado está apontando para algumas particularidades um tanto quanto negativas bem como levam a um estado de angústia incessante que enfrentamos quando precisamos lidar com as frustrações e derrotas. E por que isso está acontecendo? Tudo porque vivemos em um ritmo acelerado demais, onde nada satisfaz adequadamente o nosso ego. Percebo que vivemos em uma cultura que menospreza o lado humano que é capaz de sentir e viver suas emoções com entusiasmo natural. É como se quiséssemos transformar as pessoas em máquinas, que podemos programar onde e quando elas podem “permitir-se a sentir algo”. 

Porque nos cobramos tanto aos 17 e deixamos a melhor parte da adolescência para depois? Quando vamos compreender que o tempo não vai parar ou voltar depois? Nossas oportunidades são “o hoje” e por isso, a cultura do imediatismo cresce e desenvolve. Sem perceber, caímos na cilada da cultura, principalmente quando contribuímos para o proliferar dessa ideia, de que o adolescente precisa sair do ensino médio sabendo o que quer ser para o resto da vida, tirando dele a responsabilidade e capacidade de amadurecimento pessoal. 

A escola, os pais e os familiares podem, sim, apoiar e incentivar seus filhos a “ser alguém na vida”, porém, é importante que o adolescente participe do momento de decisões. Por que não apoiar o adolescente a buscar uma terapia ou uma orientação profissional nessa fase? Pode ser a oportunidade para que ele consiga trabalhar suas questões pessoais com um profissional qualificado. Por que geralmente não toleramos a ideia do outro? Essa cultura por vezes parece até cruel, instiga as pessoas a agir dessa forma e, ao mesmo tempo, faz com que percam a paciência com facilidade (sendo que muitas pessoas expressam dificuldade em ter paciência como uma habilidade pessoal).

Com o uso da tecnologia, tornamo-nos pessoas mais intolerantes. Geralmente, queremos que tudo seja respondido na mesma hora e nada pode ser deixado para “daqui a pouco” ou “depois mais”. Como você se sente ao enviar um recado para um contato seu de aplicativo de mensagens instantâneas e a pessoa visualiza e não te responde na hora? Que sentimentos emergem de você? E, ao contrário, como você se sente ao visualizar uma mensagem no instante em que ela chega, porém, deixa para responder mais tarde? Como você lida com esses sentimentos?

Essas são algumas questões que nos fazem pensar no modo em que estamos vivendo, nas coisas que estamos perdendo ou deixando de viver de forma mais proveitosa e saudável. Estamos falhando em alguns pontos, por vezes deixamos de viver o momento para “gravar” aquilo que estamos vendo. Mas, será que tiramos tempo para rever esse vídeo? Dificilmente! Estamos sempre tão atarefados e cheios de coisas preenchendo nosso dia que não recordamos ou revivemos aquilo que já passou. É só pensar nos Stories de 24 horas, quando publicamos o momento só por um instante! Todas essas questões podem e devem ser trabalhas em terapia, tudo faz parte do ser humano, tratam-se de questões de autoestima, aceitação, limites, frustração, tolerância e habilidades sociais. 

Por isso, questiono: será mesmo “louco” o paciente que vem até o consultório para tentar sobreviver em um mundo tão caótico? Será mesmo que é loucura estar na terapia, tentando compreender e ser objeto de mudança? Ou “loucos” somos todos que, muitas vezes, apoiamos um viver sem sentido?

Fonte: Kátia Renata Dick – Psicóloga – CRP 07/25120 – Telefone: (54) 99901-2429