Estabelecer relações equilibradas nunca foi, e muito provavelmente nunca será, algo simples. Quando pensamos em relacionamentos amorosos, o desafio não é diferente, pois a arte de amar e ser amado é um exemplo de relação que exige incontáveis habilidades: paciência, respeito, tolerância, e por aí afora.
Essa caminhada em busca de uma relação harmoniosa é longa, não bastasse isso, houve a chegada sem aviso prévio da covid-19, que trouxe significativos impactos, não apenas no âmbito da saúde e economia, e que forçam a uma releitura da vida, do mundo como um todo, inclusive no que se refere às relações de trocas e proximidade até então rotineiras, fossem elas intensas ou superficiais.
O mês dos namorados pode ser um bom convite para repensar as relações, sejam elas quais forem — casais, pais e filhos, amigos, de trabalho —afinal tudo está diferente ao que se estava habituado e como de costume o novo normalmente gera inseguranças e inquietudes.
Entre tantas prescrições, olhar para o novo como uma oportunidade talvez seja a receita da vez. Casais por exemplo, podem estar vivendo variadas situações no exercício da conjugalidade. Enquanto alguns disfrutam de momentos de reaproximação, vivendo um tempo especial da confirmação do amor, companheirismo e respeito. Outros se desafiam diariamente na tarefa de dividir a vida a dois, discussões acontecem frequentemente, por vezes, fervorosas. As dificuldades de comunicação e sintonia agora aparecem de forma mais clara, uma vez que rodadas de futebol, jantares com as amigas, idas ao clube, academias ou ao shopping perderam a capacidade de diluir ou esconder a fragilidade que muitos casais enfrentam no casamento e tem dificuldade em reconhecer.
Ao que tudo indica, esses novos tempo serão duradouros e o dito normal pode demorar a voltar, sofrendo inclusive alterações permanentes. O isolamento social trouxe diferentes formas de demostrar afeto, preocupações e cuidados. Pais que de rotina viviam atordoados com trabalho e variados compromissos diários, veem-se trabalhando no sistema home office, atendo muito mais do que a necessidade nutriz dos filhos.
Filhos que, de maneira geral, se encontram mais inquietos, chorosos, inseguros, desafiadores. Terríveis como a prática clínica tem permitido escutar. Contudo é importante favorecer o entendimento dos pais que para os pequenos toda essa alteração de rotina pode estar sendo extremamente confusa. Não ir à escola, não ver os colegas, não ir ao vôlei, ao inglês ou a tantas outras atividades extracurriculares que preenchiam a distância física da família ao longo dos dias, é com certeza uma grande mudança.
Faça valer a pena tanto sacrifício. É difícil para todos, ensine aquilo que a escola, faculdade ou curso nenhum de alta performance é capaz, ensine pelo exemplo, seja amoroso e acolhedor, mantenha as regras, mas de forma adaptativa ao cenário vivenciado e, o mais importante, seja menos exigente quanto ao desempenho acadêmico, pois o ano letivo pode ser recuperado facilmente, se comparado a transtornos de ansiedade, fobia social, ou compulsões alimentares, consideradas possíveis sequelas pós-pandêmicas.
Tão importantes quanto laços de famílias, as amizades representam significativa fonte de apoio em situações de crise bem como essenciais companhias em momentos comemorativos. Há os que acreditam que amigos são as cores da vida, então preserve seu arco-íris, cuide para que as cores continuem vivas e brilhantes. Chamadas de vídeo, mensagens de Whats, pequenas visitas de portão podem ser organizadas, desde que respeitadas as orientações de proteção e segurança. Não adoeça sua alma, não deixe o medo te afastar de quem você ama.
Estar perto não necessariamente significa estar junto. Permita-se sentir e verbalizar a saudade aos que lhe são amados, cuja ausência ou distanciamento neste momento tem reforçado o quanto cada qual é importante em sua história e o quanto saber que todos estão bem tranquiliza seu coração.
No trabalho as coisas também mudaram, alguns estão inacreditavelmente sentindo falta do colega rabugento e mal humorado, do chefe insatisfeito, das rotinas exaustivas que acarretavam tantas queixas. Aceitar a atual situação é a melhor forma de continuar produtivo. Se estiver trabalhando em casa, crie um espaço aconchegante e confortável, pois favorece que a concentração e produtividade não fiquem prejudicadas. Se sua atividade laboral permite sair e ter contato com pessoas, desempenhe-a com a máxima competência, respeito e segurança. O colega, o cliente, o paciente, seja quem for, não é responsável pelo que estamos enfrentando e eles também, a seu modo, enfrentam o mesmo cenário.
A pergunta que fica diante desse contexto é como seria estar vivendo com alguém como eu durante essa pandemia? Se a resposta for positiva, ótimo. Pode-se acreditar que, apesar das dificuldades, você tem se esforçado ao máximo para ser alguém legal, ser fonte de amparo, acolhimento e incentivo para os que de você podem estar perto. Porém se a resposta lhe trouxer inquietudes, é hora de refletir. Em tempos em que as opções de convívio encontram-se limitadas, é de fundamental importância estabelecer de forma afetiva, respeitosa e empática as relações que nos são permitidas nesse momento, por isso trate-se com amorosidade e gentileza, só se pode oferecer ao próximo aquilo que possui em si mesmo.
Fonte: Angela de Souza Garbin
CRP 07/20522
Psicóloga especialista em Relações Familiares e Conjugais
(54) 99191-6694



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