Estilo de Vida

“Eu sou egoísta!”, cantava Raul Seixas

14 de dezembro de 2020

O Egoísmo e a Sociedade estavam brigando: “Sou movimentada, competitiva e instável! Me altero a cada segundo! Você é obrigado suportar essa ansiedade, se adapte e seja manipulado por mim!”, gritou a Sociedade para o Egoísmo quase em surto psicótico.

O Egoísmo continuou a gritaria: “Eu não aguento mais ter que me reinventar em nome de você! Não quero mais saber de Sociedade nenhuma!”.

A Sociedade desprezou: “Você não escapa! Vou engolir você, transformá-lo em um robô! Olhe para todos nesta linha de montagem tecnocapitalista, obrigados a reinventar-se sem olharem para si mesmos!”, gargalhou, intimidando o Egoísmo.

Até que o Egoísmo se revoltou e disse na cara da Sociedade: “Eu só quero ser eu!”. Abandonou a sala com o abalo sonoro da porta e recolheu-se em si mesmo.

Na psicologia, o conceito de Ego é um símbolo de identificação ou alienação do Eu interior da pessoa com o que está em contato, surgindo a polaridade entre “isto sou eu” e “isto não sou eu” nas experiências que vivemos no aqui-agora. Traduzindo ao pé da letra, Ego significa Eu, e Egoísmo fica Euísmo, noutras palavras, o euísmo da pessoa faz com queo eu qual ela imagina que é esteja em primeiro lugar de qualquer pensamento, ideia ou coisa que se interponha na fronteira de contato com si mesmo, com os outros e com o mundo.

Essa situação de estar encapsulado no próprio euísmo faz com que a pessoa mesma feche sua visão de mundo em uma única possibilidade, sufocando-se em possíveis fantasias catastróficas: “Sou ninguém, então preciso ser muito” ou anastróficas: “O mundo gira ao redor de mim”. Em uma sociedade que faz apelo constante para todos serem individualistas emerge em primeiro plano um Eu de maneira que se superpõe à onipotência do “Eu posso tudo”. Desconstruir o euísmo da pessoa envolve um autoconhecimento necessário para um amadurecimento existencial de si mesmo e de abertura na fronteira de contato para as possibilidades do mundo ser algo além do que o próprio eu dela fantasia.

Como cantava Raul Seixas na música Eu sou egoísta:

“O que eu como a prato pleno

Bem, pode ser o seu veneno

Mas como vai você saber sem tentar?

Se você acha o que eu digo fascista

Mista, simplista ou antissocialista

Eu admito, você tá na pista

Eu sou ista, eu sou ego!

Eu sou egoísta, eu sou!

Porque não!”

A criança que está em desenvolvimento psíquico pega os objetos com força, os destrói, coloca-os na boca, quer devorar o mundo, é uma grande manipuladora dos pais e do mundo, como se tudo fosse dela devido o euísmo natural pela falta de linguagem e consequentemente frustrações. Mas, e você leitor? O que você tem feito com seu euísmo? Tem ouvido quais seus desejos euístas, frustrações, ressentimentos, medos ou fantasias presentes na sua bolha egoica? Deixo uma lei da Gestalt Terapia possível de execução e reflexão em seu dia a dia: “Faça aos outros o que você faz com si mesmo”.

Referências:
Jotabê, M. (2019) Raul Seixas: Não diga que a canção está perdida. (1ª ed.). São Paulo, SP: Todavia.
Perls, F. S. (2018) A abordagem gestáltica e testemunha ocular da terapia. (J. Sans, Trad.). (2ªed.). Rio de Janeiro, RJ: LTC. (Obra originalmente publicada em 1973).

Fonte:
Ricardo Chiaradia
Acadêmico de Psicologia
(54) 92000-6770 (WhatsApp)