A morte nada mais é que um desfecho inevitável para quem um dia nasceu. Sendo assim, por que é tão difícil e doloroso compreendê-la, aceitá-la e seguir em frente quando alguém que amamos morre? O luto pela perda de uma pessoa amada é uma experiência universal, desorganizadora e assustadora.
Exige de quem fica uma grande capacidade adaptativa, pois nada mais será como costumava ser. Nessas condições, o apoio psicológico pode contribuir significativamente para a redução do estresse agudo causado pelo impacto da perda e na restauração das capacidades adaptativas, pois a perda de um ente querido pode trazer as mais variadas respostas emocionais, comportamentais, físicas e espirituais
Essas respostas podem variar, pode ocorrer diminuição do interesse pelas atividades rotineiras, isolamento, distúrbios do sono, irritabilidade, silêncio excessivo, culpa, dificuldade de concentração, ansiedade, raiva de Deus incluindo abandono de práticas religiosas.
Quando pensamos em atendimento de enfrentamento ao luto, é preciso entender que estamos lidando com o sentimento de alguém que está sendo submetido a uma situação que não escolheu. Para tanto, o atendimento profissional deve contribuir para que os que aqui ficaram consigam se apropriar da nova condição de vida e sigam seus caminhos da forma menos dolorosa possível. Para evitar que o luto se torne o chamado luto complicado, entende-se que o apoio psicológico deve atender a algumas necessidades.
O reconhecimento da morte é uma dessas necessidades. Traz à consciência nossa limitação humana, o que muitas vezes desencadeia um sentimento de incapacidade e incompetência por não ter sido capaz de evitar o acontecido.
O processo de luto é lento e gradativo, os sentimentos costumam mudar conforme o tempo passa. Acolher a dor de quem está sofrendo, é fundamental porque a dor é real e precisa ser legitimada, permitir-se senti-la é único caminho na aceitação da perda. Não se deve nunca tratar a vivência da dor de quem fica como exagerada, pois só quem está lidando com o luto entende a dimensão da sua perda.
Lembrar do ente querido que morreu é não negar sua existência. Manter viva a memória do ente que partiu por meio de fotos ou algum objeto concreto pode em muitos casos facilitar a elaboração do luto, pois para alguns é uma forma de manter viva a memória de quem se foi e servir de instrumento na superação para quem fica.
Procurar por significado diante da morte é quase que inevitável e as perguntas surgem naturalmente: “Por que minha mãe morreu assim?” “Por que meu pai teve de ficar doente?” “Por que comigo? Essa não é ordem natural da vida.” Nesses momentos, provavelmente a pessoa enlutada vai explorar sua fé ou espiritualidade na tentativa de aceitar melhor a situação ou até se revoltar com Deus que permitiu que isso acontecesse. Entretanto, em ambas as situações é preciso chorar a dor e lamentar a perda, pois elas são verdadeiras.
O luto é essencialmente um processo solitário, assim como é vivenciar qualquer dor. Na verdade, podemos e devemos partilhar sentimentos e pensamentos, mas existe algo muito particular no modo como cada um vive esse momento. Estar perto, apoiar quem sofreu uma perda já algo bem importante, assim como respeitar os momentos de isolamento, quando não forem excessivos. Convidar a pessoa enlutada para momentos de lazer, passeios e reuniões de amigos é uma forma de demonstrar que a vida segue e sua presença continua sendo importante.
Trabalhar com pessoas enlutadas requer antes de mais nada sensibilidade de escuta e acolhimento da dor. É um processo que visa reestabelecer o equilíbrio do ambiente daqueles ficaram, é auxiliar na reorganização de documentos, dar atenção a cuidados e até ao sustento, dependendo de quem morreu e o lugar que ocupava na vida da pessoa que agora pode estar se sentindo desamparada e sozinha. Quem era e o que representava o ente que partiu (pai, mãe, filhos, amigos) pode dizer muito sobre a forma que os que ficam conseguirão gerenciar o processo. Expectativas, decepções, mágoas, sonhos, tudo precisa ser revisto e reorganizado. Afinal de contas uma vida se foi e todos os projetos que nela existiam também.
A saudade não passa, mas sua representação se transforma. Isso quer dizer que no início, diante do impacto da perda, a saudade dói constantemente. Essa dor vai sendo redimensionada e, aos poucos, a saudade pode ocupar um lugar diferente. O aperto no peito, a angústia e o vazio podem ser substituídos por lembranças que oscilam entre o sentimento de falta e o carinho e amor que permanecem pela pessoa que se foi.
Ter espaço para o luto na vida social, familiar, profissional e em outros campos é mais do que um direito de quem perde alguém, é um dever humano que temos uns com os outros. O processo de luto é necessário para a reconstrução do lugar do sujeito que perde alguém.
A morte faz parte da vida. Nessa lógica, é importante que se construa um espaço coletivo que legitime o luto como um recurso de saúde, não só para o enlutado, mas também para a sociedade. O processo de luto devolve ao enlutado a chance de uma nova história apesar da dor, sofrimento e saudade que a partida de alguém deixou.
Fonte:
Angela de Souza Garbin
Psicóloga — CRP 07/20522
(54) 99191-6694



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