Alimentação

Amamentar: Já nascemos sabendo?

3 de agosto de 2026

Em nossa campanha do Agosto Dourado, mês dedicado à conscientização e incentivo ao aleitamento materno propomos aqui uma reflexão importante sob o ponto de vista da Psicologia Perinatal (campo da psicologia voltado ao acolhimento e estudo das questões emocionais vivenciadas na gestação, parto e puerpério): será que o ato de amamentar é um instinto no ser humano (já “nascemos sabendo” ou, quando nasce o bebê, a mãe automaticamente saberá como fazer) ou é algo aprendido? E quais suas repercussões na saúde mental materna?

Primeiro, vamos entender o que significa instinto: para ser instinto é necessário que o ato seja idêntico em todas as culturas e através dos tempos e manifestado igualmente para todos os indivíduos daquela espécie, o que não acontece em relação a ação de maternar, tampouco na ação de amamentar na espécie humana. A amamentação é frequentemente representada como um ato puramente instintivo, que surgiria de forma automática e espontânea após o nascimento; entretanto, não é uma constatação. Embora a lactação possua uma base biológica/fisiológica, o ato de amamentar para nós, constitui uma prática complexa que precisa ser aprendida, exercitada e socialmente apoiada.

A produção e a ejeção do leite são reguladas por hormônios e pela estimulação feita pelo recém-nascido; esses mecanismos fornecem as condições biológicas para que a amamentação aconteça, mas não garantem, isoladamente, que ela seja iniciada e mantida sem dificuldades. Mãe e criança precisam desenvolver uma parceria coordenada e progressiva. A mulher precisa aprender a reconhecer sinais precoces de fome, posicionar o bebê, favorecer uma pega adequada, identificar a sucção adequada que alimenta e manejar intercorrências como ingurgitamento, fissuras nos mamilos, dor, mastite, baixa produção de leite, entre outras. Portanto, considera-se que a amamentação humana possui fundamentos biológicos, mas sua realização prática é aprendida e condicionada por experiências anteriores, observação, cultura, apoio familiar, assistência profissional, condições do parto, saúde materna e neonatal e organização social do cuidado.

Nesse contexto, esperar que a mulher “saiba naturalmente” como amamentar transfere para ela uma responsabilidade enorme. A ideia de que toda mulher deve saber amamentar por instinto produz uma expectativa irreal: a de que a amamentação ocorrerá imediatamente, sem dor, dúvida, treinamento ou necessidade de ajuda. Quando a experiência real não corresponde a essa expectativa, dificuldades comuns podem ser interpretadas como incapacidade pessoal. A mulher pode concluir que seu corpo “falhou”, que não possui leite suficiente ou que não é uma “boa mãe”. A frustração pode ser especialmente intensa quando existe grande distância entre a intenção de amamentar e a experiência efetivamente alcançada. A interrupção precoce, nesse caso, pode ser vivenciada como perda, fracasso ou ruptura de um projeto materno profundamente valorizado. Isso não significa que o uso de fórmula determine adoecimento mental, mas que a experiência subjetiva da alimentação infantil — sobretudo quando acompanhada de culpa, dor, pressão ou falta de autonomia — pode afetar significativamente o bem-estar psicológico da mãe e, por consequência, do bebê.

A relação entre amamentação e saúde mental materna é complexa. Sintomas de depressão e ansiedade podem diminuir a confiança da mulher, aumentar sua percepção de dor, dificultar a interpretação dos sinais do bebê e reduzir a persistência diante de problemas. Em sentido inverso, dor persistente, dificuldades de pega, privação de sono, baixa percepção de autoeficácia e interrupção não desejada da amamentação, podem aumentar o sofrimento emocional. A pergunta deixa de ser “por que essa mãe não consegue?” e passa a ser “quais fatores estão dificultando a aprendizagem e que suporte ela necessita?”. Neste sentido mais uma vez a Psicologia Perinatal oferece acolhimento, suporte, direcionamento a profissionais da saúde que possam auxiliar a puérpera nesta jornada e psicoterapia caso se verifique a necessidade de uma intervenção a fim de tratar ou prevenir a cronificação de sintomas emocionais e/ou psicopatológicos.

Fonte: Luciane de Albuquerque Hörner
Psicóloga Perinatal e Psicóloga Clínica, Especialista em Neuropsicologia e cursando especialização em Luto Perinatal
CRP: 07/25451
(54) 99981-4313
Instagram: @psico_luciane_horner