“Quando um paciente recebe o diagnóstico de câncer, talvez pela primeira vez na vida, ele se dê conta de sua condição de mortalidade.”
Nunca será fácil receber um diagnóstico de câncer. A situação sempre envolve uma alta carga emocional decorrente dos medos que surgem, motivados pelas dúvidas com relação ao futuro tratamento e à evolução da doença. Do ponto de vista psicológico, o doente e a enfermidade se confundem, pois o câncer afeta a psique do paciente, isto é, altera a visão da sua imagem interior, que foi formada ao longo da sua existência.
Faz se necessário o entendimento de que, o cuidar das emoções desencadeadas pelo adoecimento é imperativo, para a manutenção da qualidade de vida, tanto do paciente quanto da sua família. O paciente precisará se tornar um participante ativo de seu processo de cura. Temos cinco estágios pelos quais os pacientes passam durante este processo de doença. Esses estágios, no entanto, não ocorrem, necessariamente, um após o outro. Porém, é bom tê-los como base pois, além de servirem para entender melhor o paciente, da maneira mais adequada e assessorá-lo, proporciona a família o entendimento de muitas das respostas do doente, as quais, em geral, são incompreendidas, mal interpretadas e malconduzidas por todos aqueles que lhe dispensam cuidados e atenção.
Esses estágios foram denominados por Elizabeth Kübler-Ross (1987), médica psiquiatra, pioneira no estudo sobre a morte e o morrer. Ela traçou o que reconheceu como sendo os cinco estágios pelos quais as pessoas passam após o diagnóstico de uma doença ameaçadora da vida: negação, revolta, barganha, depressão e, finalmente, a aceitação.
A negação dificulta o diagnóstico precoce; por sua vez, um diagnóstico correto pode levar a um tratamento mais eficaz. A raiva deve ser entendida como não pessoal. Não é direcionada exclusivamente ao médico, à esposa, ao marido ou ao cuidador. É uma raiva da situação em si, que não pode ser mudada, que não pode ser revertida. Não há outra vida a ser vivida, em que outros erros serão reparados. Não há outra chance, o doente se depara com uma realidade só dele, a qual deve aceitar como sua. O acolhimento dessa situação, sem levá-la para a esfera pessoal, facilita que o paciente vivencie sua raiva, entendendo a qual natureza pertence, e trabalhe suas defesas para melhorar sua qualidade de vida. Há ainda, um tempo de vida a ser vivido e realizações a ocorrer, tudo isso em conjunto traz uma sensação de liberdade e conquista ao paciente.
Há ainda, o ressentimento, a revolta e a inveja. Ressentimento do que deveria ter sido feito e não foi, da vida que poderia ter sido diferente, dos assuntos inacabados, dos projetos truncados, dos dizeres não falados, das questões pendentes. A barganha só é vivida com quem é detentor da vida, assim, os acordos geralmente são feitos com Deus ou com os médicos que assistem o paciente. Kübler-Ross reconheceu que as pessoas podem oscilar entre os vários estágios, mas aqueles que chegam à aceitação apresentam maior possibilidade de serenidade e paz, não só para si, mas para todos ao seu entorno. Vale ressaltar que esses mesmos estágios não ocorrem somente com o paciente, mas com seus familiares também, que os vivenciam de forma similar.
Costuma-se enfatizar: que viver mais, com qualidade de vida, é viver com qualidade de vida no câncer, pois o fortalecimento do estado emocional proporciona ao paciente uma maior adesão ao tratamento. Por isso, a importância do acompanhamento do profissional psicólogo.
Na prática clínica, é sabido que a ansiedade e a depressão afetam tanto a presença como a intensidade de sintomas físicos, que representam formas comuns de estresse psicológico, das quais a depressão é um dos distúrbios mais reconhecidos nesses pacientes. Outra característica que pode ser encontrada nos pacientes oncológicos é a pressa: presa de se ver livre da doença e acabar logo com o seu sofrimento, pressa de ficar bom, de não ser mais doente, pressa de recuperar o “eu sadio”, pressa de voltar a ter sua saúde. Enfim, há uma sensação de impotência por não poder reverter a situação e não ter outra saída, a não ser o de encarar os tratamentos indicados.
Como toda doença traz imbuída culturalmente o estigma de castigo, o que de hábito encontramos frente a um diagnóstico de uma doença que, talvez pela primeira vez na vida, faça o paciente refletir sobre a sua condição de ser mortal, sobre sua vida e sua morte, são perguntas como: “o que fiz para merecer isso?” ou “por que comigo?”. Dificilmente há a compreensão de que doença e morte fazem parte do ciclo natural da vida, e que o fato de sermos bons ou de sempre termos cuidados de nossa saúde não nos imuniza contra uma doença.
Referências: Kübler – Ross, Elizabeth. Sobre a morte e o morrer. (1987)
Bifulco, Vera Anita. Revista Psique. Ano V
Fonte: Zulmira Regina P. Pan
Psicologia Clínica/ Tanatologia
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