Bem-estar

É fácil educar o filho que não é meu

23 de março de 2021

Quem já não disse ou pensou: “Ah, se fosse meu filho…”. Opinião de como educar o filho que é do outro é o que mais se percebe em rodas de conversas. Entretanto, não existem pais perfeitos, tampouco filhos ideais. O que existe é a vida real, com filhos e dificuldades reais, em que o desafio sobre a dose de liberdade, limites, direito e deveres dos filhos é uma constante polêmica. Quem está de fora sempre tem uma prescrição mais adequada. Independente da forma como os pais decidem organizar a criação de seus filhos, uma coisa é fato: nos dias atuais, é possível perceber uma grande mudança na maneira como os pais educam seus filhos.

Estamos passando por uma crise de valores, na qual a falta de limites e a falta de bons exemplos da parte dos pais traçam muitas das características que os jovens carregam para a vida adulta e, por vezes, a um alto preço. Muitos pais, na tentativa de diminuir seu sentimento de culpa pelo pouco tempo que passam com os filhos, ou até mesmo por negligência, concedem-lhes poderes incompatíveis com sua maturidade, tanto cronológica quanto emocional. Decisões sobre viagens, entretenimento, faltas na escola ou horário de dormir devem ser determinação dos pais. É responsabilidade deles saber falar um não, oferecer limites e educá-los de forma positiva, favorecendo um crescimento saudável dentro de cada fase de desenvolvimento infanto-juvenil e adulta.

É extremamente necessário que os pais sejam firmes e tenham paciência com seus filhos, pois ameaças e falatórios não adiantam. Os filhos precisam ter clareza da hierarquia que a relação pais e filhos estabelece. Com amor, respeito e acolhimento é preciso ficar claro a quem pertence o poder da decisão. A falta de limites estabelecidas pelos pais cria jovens que pensam ter o poder nas mãos e que acreditam poder fazer tudo, sem que consequências surjam em virtude de seus atos.

O grave dessa situação é que logo ali na frente a vida mostra que, na prática, causa e efeito são eternas companheiras e que as escolhas descompromissadas e irresponsáveis acumulam prejuízos significativos ao longo dos anos. Muitas crianças nunca ouviram um não de seus pais e isso acarreta prejuízos sérios para o seu amadurecimento, pois, dessa forma, não aprendem a conviver com frustações, com o espaço do outro e, o mais importante, não conseguem aprender sobre o valor da conquista, sobre o se esforçar, sobre o merecimento de ter o desejo atendido.

Quando o assunto é estabelecer limites algumas dicas podem ser úteis: não tenha medo de impor regras e limites para o seu filho desde pequeno. Acostumá-lo com esse processo logo cedo vai fazer com que ele o respeite e a suas ordens em todas as etapas de sua vida. Cumpra com as consequências estabelecidas. Se você estabeleceu uma consequência para a quebra de uma regra, é fundamental cumpri-la. A criança passará a respeitar mais suas determinações ao perceber que você realmente tem a intenção de cumprir a pena prometida. Mantenha a relação de autoridade enquanto eles morarem com você. Para os filhos que moram com os pais, é fundamental manter uma boa convivência, sem que eles, conforme forem crescendo, comecem a duvidar de sua autoridade, passando por cima do que foi estabelecido. E, para isso, é crucial manter os limites e, principalmente, as consequências. Ou seja, enquanto a casa é sua, as regras também devem ser.

Seja justo e coerente, repense os limites para que eles façam sentido quando forem explicados à criança ou ao adolescente – não dá para cobrar coisas muito diferentes quando existe idade e condições semelhantes. O que vale para um, vale para todos, em caso de irmãos. Inclusive, em caso de visitas, os filhos podem explicar aos amigos as regras da casa.

Educar não é fácil, exige amor, paciência, disposição e muito pulso firme. Não desista no meio do caminho do que foi combinado ou sua credibilidade irá por água abaixo. Garanta com que os limites impostos se adéquem à vida cotidiana da família. Deixe claro que as regras não se aplicam só dentro de casa, pois também valem para quando eles estiverem fora dela. Se o combinado for descumprido durante um passeio ou na casa de outra pessoa, as consequências combinadas devem ser aplicadas. Converse com avós, tios e padrinhos para que eles não permitam atitudes proibidas por você. Se isso acontecer, explique para a criança que foi uma exceção e que a regra continua valendo em casa e em outros lugares também.

Os adultos são os únicos responsáveis pela educação das crianças que cuidam. Assim, é muito importante que a criança aprenda valores e saiba a importância de ser solidária, de partilhar, de respeitar a si mesma e aos outros, de ter compromisso e responsabilidades com seus atos.

Impor limites e estabelecer regras é fundamental para que os filhos se tornem adultos responsáveis e que primam pelo respeito. E é preciso que os pais entendam que não podem abster as crianças das frustrações, pois é dessa forma que elas amadurecem e se tornam aptas para enfrentar a vida. Em sua missão de educá-los, os pais precisam de autoridade, persistência e determinação para manter os filhos em um caminho seguro de desenvolvimento da própria autonomia, o que lhes permite tornarem-se jovens e adultos saudáveis e com funcionamento autônomo adequado e equilibrado.

Fonte: Angela de Souza Garbin – Psicóloga – CRP 20522 – Telefone: (54) 99191-6694