Bem-estar

Espiritualidade, cuidado e envelhecimento humano

11 de setembro de 2019

Diversas ciências comprovam que a população mundial está envelhecendo e caracterizam este fenômeno como sendo multidimensional, quer dizer, que envolve uma multiplicidade de fatores que o causam ao mesmo tempo em que nele interferem de modo a torná-lo singular na história da humanidade. Por sua complexidade, o fenômeno do envelhecimento populacional mundial constitui tema de interesse investigativo de diversas ciências ou disciplinas, como a economia, a sociologia, a história, a literatura, as ciências da saúde em geral, a educação, a filosofia, entre outras. Cada ciência, com seus conhecimentos, metodologias e visões de mundo, lança um olhar para o fenômeno de modo a contribuir na ampliação de seu entendimento.

A contribuição que cada ciência oferece para que melhor se compreendam os elementos que condicionam ou influenciam o envelhecimento humano é fundamental. Esses conhecimentos ajudam sobremaneira a melhorar a vida de todos os seres humanos que passam dos 60 anos, para ficarmos no aspecto cronológico utilizado como um dos critérios que definem quem é idoso em nosso país. Todavia, ao olharmos atentamente para a realidade do envelhecimento populacional, percebemos as diferentes formas de envelhecer que podem caracterizar o contingente de idosos brasileiros (interessante notar que se expandirmos essa percepção para o mundo todo, será possível perceber milhares de outras formas mais!). Nessas diferentes formas de envelhecer, percebemos realidades diversas, que podem ser descritas em cenários que vão, por exemplo, desde idosos economicamente assegurados, porém infelizes e depressivos, até idosos em condições econômicas de vida bastante difíceis, mas que podem revelar um grau de satisfação com a própria vida mais elevado. Ainda, idosos que mesmo em idade avançada continuam plenamente capazes de cuidarem de si mesmos até idosos que perderam o poder sobre suas capacidades mentais e físicas, tornando-se completamente dependentes dos cuidados de terceiros.
Essa multiplicidade de “envelheceres” revela que embora o fenômeno possua elementos comuns, que vêm sendo estudados e definidos pelas diversas ciências, cada indivíduo envelhece de forma singular, de acordo com a importância que concede a esses conhecimentos produzidos e também de acordo com suas formas próprias de cuidar de si mesmo. Essas formas próprias são traduzidas pelo pensador francês Michel Foucault como espiritualidade. Para ele, espiritualidade diz respeito ao modo como cada pessoa cuida de si, através de exercícios diversos, como leitura, escrita, ouvir música, alimentar-se adequadamente, meditar, dançar, entre outros. Através destes exercícios espirituais, transformamos nossas almas e constituímos nossa subjetividade. Interessante notar também que esses exercícios, embora praticados pelo próprio indivíduo, para que alcancem seu objetivo de transformação de si mesmo, precisam ser compartilhados e vivenciados com os outros, indicando que a espiritualidade, nesse sentido, não é construída de forma isolada, mas sempre em contato com o outro, com os demais.

Se concordamos com a hipótese de que há uma multiplicidade de “envelheceres”, se acreditamos que o processo não acontece da mesma maneira para todos, pois cada um se apropria e utiliza os saberes produzidos pelas ciências de modos diferentes e se também concordamos com o pensador francês sobre a afirmação de que espiritualidade diz respeito às diversas formas, próprias de cada um, para cuidar de si mesmo, não há como fugir da realidade de que cada um envelhece “do seu próprio jeito”. Assim, para que se possa compreender melhor o fenômeno do envelhecimento humano, para que possamos cuidar de nossos idosos (e de nós mesmos, que, se já não somos idosos, certamente um dia nos tornaremos!) parece fundamental compreender de que forma cada pessoa envelhece, de que forma cada pessoa se apropria dos conhecimentos das diversas ciências para cuidar de si. E para que essa compreensão aconteça, o diálogo constitui elemento essencial. É pela conversa com nossos idosos que descobriremos seus “envelheceres”. É pela escuta atenta, ativa, interessada sobre eles, sobre suas vidas, histórias, sobre suas formas de cuidar de si, enfim, sobre suas espiritualidades que poderemos cuidá-los melhor e, aprendendo com eles, envelhecermos juntos, embora de formas diferentes.

Fonte: Renata Maraschin – Fisioterapeuta Crefito 5 84214-F – Me. em Envelhecimento Humano e Dra. em Educação – (54) 99904-6277