Num luto coletivo é permitido demonstrar a tristeza sem censura. Especialistas afirmam que a morte de personalidades conhecidas e admiradas pelo grande público, permite que as pessoas que não “elaboraram” seus próprios lutos venham a fazê-los. É um momento de reviver as perdas pessoais, extravasar emoções abafadas. “Tomamos emprestado um pouco deste luto para chorar nossas dores.”
Mesmo sem perceber, o luto coletivo é uma chance para entrar em contato com o luto privativo, muitas vezes reprimido por uma espécie de defesa pessoal ou até por mudanças da sociedade atual, que tornaram os rituais de despedidas mais curtos e superficiais. O ritual tem uma função terapêutica.
A intensidade deste luto coletivo vai depender do quanto o individuo sentia algum vínculo por quem morreu. O sentimento de luto, então, está ligado à vinculação criada, independentemente da proximidade física ou de laços sanguíneos.
Quando a morte se apresenta através de um desastre e, portanto, a admitimos como um “acidente” de percurso, a primeira coisa que a população faz é uma equação que calcula diferenças entre o falecido e nós mesmos: comorbidades, probabilidades, descuidos. Quando um individuo novo, saudável, produtivo e alegre morre, isso desmonta toda essa equação e emite um alerta.
Se confrontar com a morte de alguém que se identifica, faz com que as pessoas se confrontem com a possibilidade da própria morte, ou da morte de um filho, de uma mãe, de uma esposa, de um irmão, de uma amiga… Isso é de se perceber vulnerável e de se sentir suscetível à morte. O luto coletivo também traz uma sensação de pertencimento. Não estamos sozinhos. Podemos chorar, sentir raiva, cansaço, tudo o que uma experiência de dor nos traz. A empatia faz de nos colocarmos no lugar dos entes mais próximos que estão vivendo o momento da ausência de quem mais amavam. A dor sentida deve ser respeitada.
Recentemente, a morte da cantora Marilia Mendonça, comoveu seus fãs. Ela era jovem, tinha criado uma vertente musical de sertanejo “sofrência”; estava fazendo sucesso e tinha um futuro promissor. Este é um exemplo recente de luto coletivo por um ídolo. Temos também outros tipos de lutos coletivos, como as mortes provocadas pela pandemia do Sars-Cov 2 (Covid-19 em 2020), o rompimento da barragem de Brumadinho (2019) e o incêndio na boate Kiss (2013).
Tragédias nos desorganizam. Abalam os sentimentos de segurança, mostrando que a finitude acontece de forma incontrolável.
Fonte:
Zulmira Regina P. Pan
Psicóloga – CRP 07/21386
Formação em Tanotologia
(54) 3045-3223



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