É sabido o conceito de puerpério pela visão da medicina, observando todas as alterações fisiológicas iniciadas imediatamente após o parto e estendendo-se até o desaparecimento das alterações anatômicas, funcionais e hormonais decorrentes da gestação, com retorno do organismo materno às condições pré-gravídicas, tendo duração aproximada de 42 a 45 dias ou prolongando-se um pouco mais devido a ajustes especialmente hormonais e metabólicos. Porém, pelo olhar e compreensão da psicologia perinatal (área da psicologia focada no estudo, compreensão e intervenção no universo da maternidade: pré-gestação, gestação, parto, puerpério e relação parental), este período se prolonga bem mais, envolvendo todo período onde houver alterações emocionais e sociais ou necessidades adaptativas da mulher em seu novo papel.
No puerpério psicológico assim como o corpo passa por mudanças físicas, a mente também enfrenta um processo intenso de ajustes e isto é totalmente normal e esperado: a chamada transição para a maternidade. Considerando-se que estas mudanças acontecem em fases que vão sucedendo até a primeira infância da criança, podemos pensar em um puerpério que dura um ano, dois ou até um pouco mais, lembrando que a experiência é única para cada mulher e o ritmo acontece de forma individual.
Para compreendermos melhor a complexidade do tema, é importante salientar os inúmeros fatores envolvidos nessa fase e dentre eles podemos citar: as privações experimentadas num primeiro momento (de sono, de tempo para si, da antiga rotina e hábitos), a relação entre hormônios e o humor e a resposta emocional intensa da mulher após o parto; o enfrentamento do “baby blues” que é uma condição transitória, prevalente entre 50 a 90% das puérperas, com duração estimada de até 45 dias, não classificada como transtorno mental, mas tendo como características a labilidade afetiva, o choro frequente, a irritabilidade e presença de ansiedade leve, decorrente da queda abrupta do estrogênio e progesterona e alterações neuroendócrinas; a cronificação de sintomas já existentes durante a gestação e/ou aparecimento destes após o parto evoluindo para quadros de Estresse a nível de exaustão, Depressão pós-parto, Ansiedade pós-parto, Psicose pós-parto, Transtorno de estresse pós-traumático pós-parto; o trabalho natural (porém não menos intenso) de vinculação mãe-bebê e o impacto da saúde mental materna no desenvolvimento infantil pois é preciso haver uma boa/adequada interação precoce mãe-bebê e para isso ocorrer naturalmente é necessário haver uma mãe emocionalmente saudável; aprendizado ou ajustes para a prática da amamentação ou o enfrentamento da condição de não conseguir amamentar. Somando-se ainda a estes fatores temos a adequação ao novo papel social, a idealização da maternidade que pode gerar frustrações importantes, a vivência da pressão social e redes sociais que criam terreno fértil a comparações e, ainda, alterações comportamentais suas, do parceiro e da família. Tudo isso em um momento onde o protagonismo é todo do bebê e a mulher torna-se muitas vezes invisível ou cobrada em demasia.
E como a Psicologia Perinatal pode contribuir para que essa mãe possa passar por este período de forma mais saudável e leve? Oferecendo acolhimento e escuta especializada, trabalhando o seu fortalecimento e de sua rede de apoio (família, parceiro, amigos), oferecendo acompanhamento psicológico (psicoterapia); esclarecendo que apesar de neste período as exigências e intensidades ser muitas, deve-se buscar suporte e um espaço seguro que as auxiliem a enfrentar as dificuldades, pois a saúde da mãe e seu estado emocional interferem diretamente na construção do vínculo, no desenvolvimento e no bem-estar do recém-nascido, bem como em sua saúde mental a médio/longo prazo.
Fonte:
Luciane de Albuquerque Hörner
Psicóloga Perinatal e Psicóloga Clínica
Especialista em Neuropsicologia
CRP: 07/25451
(54) 99981-4313
Instagram: @psico_luciane_horner



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