Bem-estar

O que o enlutado precisa

5 de novembro de 2021

Falar de morte não é algo comum. Costumamos pensar na vida somente como planos, sonhos, conquistas, perspectivas, chegadas, etc., e anulamos o fato da finitude, da partida, das perdas do fim, ou seja, da morte que também é parte do ciclo da vida. Isso nos autoriza a pensar o quão difícil é enfrentar o processo de morte de um ente querido. Na maioria das vezes existe um desejo de ajudar os que aqui ficaram, contudo, descobrir a receita parece impossível.

Muito provavelmente porque a mesma não existe, cada processo de luto é singular, dinâmico e constante. O luto tende a consumir todas as reservas de força, esperança e superação que se tem. Algumas práticas são inúteis.

Não adianta mandar textos e vídeos motivacionais, nem mesmo orações. O enlutado não verá os vídeos, não lerá os textos e nem fará as orações é importante ter clareza que para muitos a vida perdeu total sentido. Sendo assim, o acolhimento desta dor com carinho e respeito é o que fará a diferença durante esta nova caminhada adaptativa da vida do enlutado.

Faça um esforço amoroso para estar presencialmente com a pessoa que ficou, mesmo que seja algo muito simples, contudo não espere que a pessoa diga: venha me visitar ou que responda que não gostaria de ficar sozinha. Ouça sem julgamentos, deixe-a falar exaustivamente sobre o que ela quiser, deixe-a chorar, gritar, xingar, reclamar… deixe-a livre para se expressar como o seu coração deseja naquele momento.

Quando você está na presença de um enlutado, geralmente é difícil saber o que dizer. Sua tendência natural pode ser tentar fazê-lo se sentir melhor, um dos aspectos mais importantes do processo de luto é a capacidade de expressar profunda tristeza e se permitir chorar. Deixar o enlutado chorar demonstra que você entende o choro como uma parte natural do luto. Pode ser tentador tentar animar o enlutado ou lhe dizer para não chorar. Quando as pessoas são desencorajadas a chorar, isso é um reflexo do desconforto que os outros sentem por testemunharem tanta dor, mas pense nas lágrimas como uma parte necessária da jornada de cura.

O luto é um processo por si só extremamente desorganizador na vida do sujeito enlutado então não tenha medo de fazer perguntas sobre o autocuidado do tipo: como está dormindo, se alimentando e até mesmo trabalhando quando esta for uma possibilidade existente. Aventure-se em saber como ele está se sentindo emocionalmente e ouça com compaixão e cuidado. Lembre-se de que você não precisa consertar nada – não há nada que você possa fazer para que a dor da pessoa desapareça – mas a sua presença e compaixão podem fazer toda a diferença. Jamais nos esqueceremos daqueles que nos piores momentos de nossas vidas, nos fizeram uma visita e nos escutaram com carinho livres de julgamentos.

Oferecer ajuda prática é um gesto de amor, pois pode ser um salva-vidas quando quem ficou está tentando sobreviver para lidar com as tarefas cotidianas na vida e que agora tem um peso insuportável. Você pode ficar surpreso com o quão benéficas essas tarefas práticas podem ser: desde limpar a casa ou fazer as compras, comidas, lavar uma roupa, auxiliar com os pets ou cuidado das crianças.

O luto introduz uma variedade de emoções fortes e, às vezes, tudo que uma pessoa enlutada precisa é de alguém se sente ao seu lado em silêncio, para que ela possa vivenciar um instante de paz. Pode ser difícil ficar sentado em silêncio, principalmente quando você sabe que o enlutado está lutando contra uma dor emocional. Resista ao impulso de preencher o silêncio com algo que certamente não será mais precioso do que a paz de espirito que o silêncio oferece. Sua presença é o suficiente. Ao se colocar á disposição do enlutado só para estar ao seu lado mesmo que quieto, você oferece a ele algo inestimável: o seu tempo. E isso, jamais será esquecido.

O luto não é um problema a ser resolvido. A melhor coisa que você pode oferecer a um enlutado é um abraço, um ouvido atento e uma presença compassiva. A morte causa uma dor irreparável, é como se fosse uma ferida profunda que se abre no peito e leva um tempo para cicatrizar, e este tempo varia de pessoa para pessoa, das estratégias de enfrentamento, da resiliência, do modo como encara o fato, etc., a certeza que se tem diante desse ferimento é que ele cicatriza, e essa cicatriz sempre vai trazer a lembrança que alguém especial esteve ali.

Nenhuma combinação de palavras fará com que a dor do enlutado vá embora. Não se preocupe em dizer a coisa certa porque, honestamente, não há nada certo a dizer. O luto pode consumir tudo. Apenas estar presente oferecendo cuidado, amor e bondade é tudo o que importa.

Fonte: Angela de Souza Garbin
Psicóloga | CRP 07/20522
(54) 99191-6694