Existe uma expectativa silenciosa em torno do pai: a de que ele já saiba. Saiba proteger, saiba decidir, saiba resolver. Essa é a imagem que muitos homens carregam antes mesmo de terem filhos: a de que a autoridade paterna depende de nunca demonstrar dúvidas. Mas a chegada de um filho costuma desmontar essa certeza logo nas primeiras noites mal dormidas, nos primeiros choros sem explicação e nas perguntas para as quais não existe manual.
Convido você a olhar essa experiência por outro ângulo: e se não saber tudo não fosse uma falha, mas justamente uma condição para ocupar o lugar de pai? Nenhum homem nasce pronto para a paternidade. Tornar-se pai implica confrontar os próprios ideais de força, segurança e controle, frequentemente reforçados pela cultura e pelas expectativas sociais. Quando a experiência concreta desmonta essas imagens, abre-se espaço para algo novo: uma forma mais singular e mais humana de viver a paternidade.
Em psicanálise, esse tipo de exigência tem nome: Freud chamava de Ideal do Eu a instância psíquica que fixa metas de perfeição a partir de exigências parentais e culturais internalizadas ainda na infância. É por meio dele que o sujeito se mede, comparando o que é ao que “deveria ser”. No caso do homem, esse ideal costuma se traduzir em imagens de força, autossuficiência e controle, absorvidas muito antes de qualquer filho existir. A paternidade real, por não caber nesse molde, produz justamente o atrito de que fala este texto: a distância entre o pai idealizado e o pai possível.
Autorizar-se a não saber é um gesto pouco valorizado, mas profundamente transformador. Perguntar ao pediatra, ligar para a própria mãe pedindo um conselho, admitir ao filho mais velho que errou e pedir desculpas… Nada disso diminui a autoridade paterna. Pelo contrário, mostra à criança que é possível falhar, aprender e continuar sendo uma referência de amor e cuidado.
O mesmo vale para o choro. Muitos homens aprenderam, ainda meninos, que demonstrar emoção era sinal de fraqueza. Cresceram acreditando que precisavam suportar tudo em silêncio e levaram essa ideia para dentro da paternidade. Mas um pai que consegue mostrar sua emoção sem colocar sobre o filho o peso de sustentá-la ensina algo que nenhuma palavra é capaz de ensinar sozinha: que sentir não diminui ninguém e que sensibilidade e responsabilidade podem caminhar juntas.
Nesse sentido, a paternidade não é apenas um papel a desempenhar, mas um processo contínuo de transformação. Cada dúvida admitida, cada erro reconhecido e cada emoção acolhida ajudam a construir uma forma mais autêntica de ocupar o lugar de pai. Não o pai que tudo sabe, mas aquele que permanece disposto a aprender. Inclusive com o próprio filho.
Neste Dia dos Pais, talvez o presente mais valioso não seja uma certeza a mais, mas a permissão para continuar em construção. Afinal, ser pai também é isso: descobrir, dia após dia, a sua própria maneira de viver a paternidade.
Fonte: Fabiana Duarte
Psicanalista
(54) 99980-2205
Instagram: @fabianaduarte.psicanalista


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