Bem-estar

Tempo contado versus tempo (bem) aproveitado

18 de janeiro de 2021

Em início de novo ano, é oportuno que falemos de tempo, todavia, não pretendo cair no lugar comum daqueles que se limitam a queixar-se da falta de tempo, e vou explicar o porquê.

A mitologia influente no Ocidente é a greco-romana e é nela que encontramos o mito do deus Chronos, que, segundo uma profecia, um dia seria alijado do poder por um de seus filhos. Temendo isso, cada vez que um filho nascia, ele o engolia. Quando o sexto filho (Zeus) nasceu, a mãe enganou Chronos, dando-lhe um pano para que ele engolisse. Uma vez adulto, Zeus – o sobrevivente — deu uma poção ao seu pai e ele vomitou todos os outros filhos, que foram libertados e Chronos perdeu seu poder, cumprindo-se assim a profecia. Mais tarde, Zeus teve um filho chamado Kairós.

Você já reparou que o instrumento chamado cronômetro (que serve para medir o tempo) tem, em sua raiz, o nome do deus Chronos? Sempre que falamos em tempo, somos compelidos a contá-lo em segundos, minutos, horas, dias ou anos, como se essa fosse a única possibilidade. Pergunto: se Chronos representa o tempo implacável — aquele que não perdoava os próprios filhos — então, por que se compadeceria de nós, pobres mortais? É aqui que proponho a reflexão, pois os gregos tinham também outra definição de tempo. Para eles, o tempo, Kairós, era aquele que se referia a um momento indeterminado, quando algo de especial acontece, o tempo da oportunidade.

Então, se há o tempo contado (Chronos), o do relógio, que nos impõe prazos, que nos cobra e, por vezes, escraviza; há o tempo da oportunidade (Kairós), o tempo em que desfrutamos de qualidade. Quem já não percebeu que em situações desconfortáveis, de sofrimento ou de tédio, o tempo parece não passar nunca? E, do contrário, quando estamos em momentos agradáveis, tudo parece passar tão rapidamente? O que precisamos aprender é como equilibrá-los, ou, em linguagem burocrática, como administrar o tempo.

O homem filosofa sobre o tempo desde a antiguidade, basta lermos Sêneca (4 a.C.) em sua obra Sobre a brevidade da vida, ou Cícero (106 a.C.) em Saber envelhecer, que veremos tamanha sabedoria que parecem ter sido escritas nos dias atuais. Também da antiguidade temos esta pérola bíblica em Eclesiastes: “Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz”.

É com esta mensagem que deixo meu desejo de que em 2021 possamos valorizar mais nosso tempo e aproveitar as oportunidades que se nos apresentem. Feliz ano novo.

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César A R de Oliveira
Psicólogo – Whatsapp (54) 99981-6455