Bem-estar

Tipos de mortes e o luto

12 de novembro de 2020

No mês de novembro, temos o Dia de Finados e neste ano tivemos muitas mortes, com pouco tempo, para assimilação da perda, por conta dos velórios reduzidos e de caixões lacrados. Pois uma das funções dos velórios é fazer com que a perda seja aos poucos aceita. As pessoas saem de perto do caixão e depois retornam, fazendo assim sua despedida aos poucos. Achei importante escrever sobre os tipos de morte e de que forma elas afetam as pessoas na elaboração do luto. A morte de uma pessoa querida é sempre muito difícil de ser enfrentada e exige que o indivíduo retire uma grande carga de energia, que o desequilibra física e psicologicamente. A pessoa necessitará de um tempo para se reestabelecer, reorganizar e aprender a viver sem a pessoa que morreu.

Algumas mortes são anunciadas e possibilitam pensar na falta, permitem o preparo, mesmo que negado, como no caso de pessoas doentes em estágios terminais, velhice, indivíduos ligados ao crime ou mesmo em esportes radicais (o lazer perigoso). Outras (e muitas) mortes, porém são abruptas, estúpidas, violentas, absolutamente inesperadas. A notícia surpreende, desestabiliza, desorganiza, ameaça a sanidade. Em Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, é cantada a morte morrida e a morte matada; há que se conformar, por que se morre de doença, de fome ou de velhice, em qualquer idade e até quem ainda não nasceu. Mas, a morte matada é de difícil compreensão, por que chega de surpresa e parece sempre que a pessoa morreu antes da hora. Não há como se defender de um golpe que não se espera.

Em caso de acidentes, a fatalidade ao menos possibilita a resignação. Já mortes por violência dirigida, dificulta a elaboração. No homicídio, há um culpado e a punição, ou o tempo de ela acontecer ou não, parece direcionar a elaboração da perda. No suicídio, quando a pessoa amada escolhe morrer, coloca a dor no patamar do insuportável/insuperável. A culpa autoimposta e imposta pela sociedade apropria-se das pessoas que sofrem a perda e quase (ou até mesmo) impossibilita e dificulta o processo do luto.

Entre as mortes violentas, como o homicídio (alguém do mal matou alguém do bem) e suicídio, podemos dizer que existe uma grande dificuldade de elaboração. Entre todas, o suicídio ainda parece ser mais complicado, pois houve uma escolha e pessoas enlutadas por alguém que cometeu suicídio são conhecidas como sobreviventes.

Mortes violentas e repentinas representam um risco importante para a saúde mental, pois têm o potencial de desencadear reações devastadoras e desorganizadoras, somadas ao sentimento de culpa, revolta, desamparo e confusão. Tais sentimentos perturbam, atrapalham, dificultam e podem até impedir a elaboração da perda.

Para lembrarmos como o luto ocorre nesses tipos de mortes, morridas e matadas, precisamos diferenciar a tristeza de depressão. Tristeza é um sentimento normal e que precisa de expressão, tal qual a alegria. Depressão é doença, precisa de tratamento médico e psicológico. Atualmente, parece não ser admissível que a tristeza possa durar mais de três meses. Após esse período (e às vezes antes) considera-se que a pessoa está com depressão e busca-se medicá-la, interferindo no processo de elaboração da perda e transformação da tristeza, tão necessária para o enfrentamento e a reinvenção da vida, sem a pessoa que morreu.

O tempo do luto é muito particular, individual, depende do vínculo estabelecido com quem morreu, além das características e ferramentas de enfrentamento e proteção da pessoa que perdeu. Em uma linguagem psicológica, podemos dizer que não há tempo definido, pois existe uma energia dirigida a alguém que se ama, quando essa pessoa morre, a energia continua lá, sufocando o indivíduo enlutado até que ele consiga redirecioná-la.

Fonte:
Zulmira Regina Puerari Pan
Psicóloga clínica
CRP 07/21386
(54) 3045-3223